GRIS incide sobre o valor da nota, nunca sobre o valor do frete
O que é GRIS, sobre qual base ele incide, como o mínimo em reais funciona e como distinguir um piso legítimo de um percentual cobrado errado.
GRIS significa gerenciamento de risco, e é a parcela da fatura de frete que mais gera pergunta: tanto porque parece duplicar o ad valorem quanto porque é a que vem errada com mais frequência.
O que ele remunera
Não é seguro. Seguro é apólice, tem seguradora e indeniza sinistro. O GRIS remunera o aparato que existe para o sinistro não acontecer: rastreador no veículo, central que monitora a viagem, consulta cadastral do motorista antes do embarque, plano de gerenciamento de risco, escolta quando o perfil da carga exige.
Essa é a distinção que resolve a confusão com o ad valorem. O ad valorem é o preço de carregar algo que vale dinheiro, exposição. O GRIS é o preço de tentar impedir que aquilo aconteça: prevenção. As duas parcelas na mesma fatura não são cobrança em dobro.
A base é a nota, e isso não é negociável
O GRIS é um percentual sobre o valor da nota fiscal da mercadoria. Tipicamente entre 0,10% e 0,30%, variando com tipo de carga, corredor e histórico.
Aplicar o percentual sobre o valor do frete é o erro clássico, e ele tem uma consequência curiosa: pode gerar cobrança a menos. Em carga de baixo valor e frete alto, o GRIS sobre o frete sai maior; em carga de alto valor e frete baixo, eletrônicos, medicamentos, cosméticos, sai muito menor. Nos dois casos está errado, e nos dois casos convém corrigir: a cobrança a menos hoje é a cobrança retroativa de amanhã.
O mínimo em reais, e por que ele confunde auditoria
Quase todo contrato traz o GRIS como "0,15% sobre o valor da NF, mínimo de R$ 8,50", ou outro piso qualquer. Faz sentido: monitorar uma viagem tem custo fixo, e 0,15% de uma nota de R$ 2 mil não paga a consulta cadastral do motorista.
O efeito na fatura é que o percentual implícito sobe nas notas pequenas. Uma nota de R$ 1.686 com GRIS de R$ 8,50 tem percentual implícito de 0,50%, mais que o triplo do contratado, e está absolutamente correta.
É aqui que auditoria malfeita queima credibilidade. Um relatório que acusa erro em toda nota pequena é um relatório que a transportadora derruba em cinco minutos, e junto com ele derruba os achados que eram verdadeiros.
Como distinguir piso de erro, sem o contrato: um piso é o mesmo valor em reais aparecendo em notas de valores diferentes. Um percentual nunca faz isso: se a base muda, o valor muda. Então quando R$ 8,50 aparece numa nota de R$ 1.686 e outra vez numa de R$ 2.797, aquilo é um piso, e o piso é R$ 8,50. É exatamente esse teste que o Auditor de Frete roda antes de acusar qualquer desvio de percentual.
O que auditar no GRIS, em ordem
- O percentual implícito é constante? Calcule
GRIS ÷ valor da NFem todas as linhas. Numa fatura correta, esse número é o mesmo em todas: exceto onde o piso pegou. - Onde ele foge, o valor bate com o percentual sobre o frete? Se sim, o diagnóstico está feito: a base está errada, e o número prova.
- O piso é o contratado? Depois de identificar o valor do piso pela repetição, compare com o contrato. Piso maior que o contratado é sobrepreço em todas as notas pequenas, o que numa operação de muitos embarques leves é dinheiro relevante.
- O percentual é o contratado? Este é o único dos quatro que exige o contrato. E costuma ser o de maior valor, porque incide sobre todas as notas grandes.
Uma nota sobre negociação
Como o GRIS remunera aparato, ele é a parcela em que faz mais sentido perguntar o que está sendo comprado. Uma operação que já paga sua própria gerenciadora de risco, com rastreador próprio e central contratada, está pagando GRIS na fatura da transportadora por um aparato que ela também mantém do seu lado. Isso não é necessariamente erro, mas é uma conversa de contrato que quase nunca acontece, porque quase ninguém olha a parcela linha a linha.
Fontes
- Composição tarifária SETCESP
- Manual de Cálculo de Custos e Formação de Preços do Transporte Rodoviário de Cargas (NTC&Logística)
Perguntas frequentes
O que é GRIS no frete?
GRIS é a taxa de gerenciamento de risco cobrada pela transportadora para remunerar o aparato de prevenção de roubo de carga, rastreamento, central de monitoramento, consulta cadastral de motorista, escolta quando aplicável. É cobrada como percentual sobre o valor da nota fiscal da mercadoria, com mínimo em reais.
GRIS incide sobre o frete ou sobre o valor da nota?
Sobre o valor da nota fiscal da mercadoria. Aplicar o percentual sobre o valor do frete é um dos erros mais comuns de configuração de fatura e resulta em cobrança menor ou maior que a devida, dependendo da relação entre frete e valor da carga.
Qual o percentual normal de GRIS?
Entre 0,10% e 0,30% sobre o valor da nota, dependendo do tipo de carga, da rota e do perfil de risco. Cargas de alto valor agregado e corredores com histórico de roubo puxam o percentual para cima.
GRIS e ad valorem são a mesma coisa?
Não. O ad valorem, ou frete-valor, remunera a exposição patrimonial ao valor da carga. O GRIS remunera o custo do aparato de prevenção. Podem coexistir na mesma fatura legitimamente, e ambos incidem sobre o valor da nota.